Dança no Tempo Presente

artigo escrito por Roman Bruni trata da primeira mostra de vídeos sobre dança
no primeiro Carlton Dance Festival, São Paulo 1987, p/ jornal Cine Imaginário
do Rio de Janeiro.  Classifica modos de registro documental com câmeras vídeo e inventa o termo ‘videodança’ para se referir a uma nova classe de vídeos sobre dança e espetáculos de dança em que a verve, a energia vibrante da sensação de movimento e sinestesia sentidos pelo público na performance ao vivo pudessem ser sentidas
também pelo espectador de audiovisual. O termo ‘videodança’ a seguir
começou a circular a partir da segunda edição do festival e ao redor do mundo;
hoje é termo corrente. Re-escrito e atualizado com alguma maturidade extra em maio 2011, confirma a solidez das classes e reafirma tendências que se repetem nos novos dispositivos móveis de gravação de vídeo agora digital.

A busca de novos rumos teve no Carlton Dance Festival, realizado em SP
entre os dias 23 e 29 de março de 1987, um evento maior, onde se viram inquietantes simbioses coreográficas.
O que se viu claramente foi a busca incessante de um equilíbrio ideal entre a proposta
do artista e o impacto no espectador: “a identidade com pessoas, idéias e movimentos artísticos e culturais como espelho da realidade presente”.
No Teatro Sérgio Cardoso, amantes da dança exercitaram sua impecabilidade
admirando espetáculos de varias origens enquanto tentava contornar
o alto preço do ingresso. Já no Museu da Imagem e do Som a falta de divulgação
da mostra de ‘vídeos de dança’ garantiu a tranqüilidade dos primeiros dias,
até ser descoberta.

A MOSTRA DE VIDEODANÇA
Numa época em que registros eletrônicos estavam começando a se tornar viáveis
com novas câmeras de vídeo portátil com preços acessíveis, e,
em que os videomakers se sentiam ainda sem um espaço estético cultural definido,
o primeiro que me chamou a atenção foi a sala de exibição de vídeo
ao sentar-me para ver a mostra no MIS SP foi o espaço: tapetes,
lanterninhas indicando o lugar, tudo projetando na tela vídeos de dança
com todo o ritual do cinema; o que sugere que o vídeo não é mais apoio,
concorrente ou artificialismo do cinema, na família audiovisual.
Entretanto o vídeo traz na sua origem eletrônica da televisão, idéias,
conceitos e percepções.
Nan June Paik (não pronuncie Peeke, Poke ou Puke) o mestre de videoarte
diz: “Ao sentar-me para ver TV, tenho a consciência do canal sintonizado,
que posso trocar”. Mas um vídeo de um espetáculo de dança não permite
‘mudar de canal’ para assistir ao mesmo programa com outro ponto de vista
em outra emissora.
O videomaker é que imprime ao registro um caráter pessoal, estético, político
e de compreensão do que acontece, gerando variados graus de eficácia documental.
Registro e documento todos vídeos são, mas alguns podem transcender e trazer mais
do que informações e dados: há programas que proporcionam uma experiência narrativa
e sensorial, que afeta nossa percepção, que alimenta nossa cultura pessoal
e que mudam nossos comportamentos.

REGISTRO DOCUMENTÁRIO
‘Registro de Fatos’ definem e especificam as diferentes fases de um processo com fatos,
documentam a existência da dança com neutralidade jornalística do videomaker.
Durante a mostra o vídeo sobre Klaus Vianna, conta sua proposta de “vivência”
com a dança e descreve como acontece o processo orgânico da criação de dança.
No vídeo making of a evolução gestual da obra-prima “The Blue Lady” mostra diferentes fases da criação do solo de Carolyn Carlson, espetáculo que também foi apresentado
no Festival; provocou um efeito inesperado de sentido ao reconhecer no espetáculo momentos vistos previamente no vídeo.
‘Documento de Espetáculos ou Danças’ mostram o produto acabado coreográfico gravado
em vídeo como uma espécie de portfolio incompleto que não substitui o espetáculo,
que só pode ser apreciado ao vivo. Mostram o real como foi feito, respeitam as proporções de cada elemento da obra (texto, som, imagem, cenário, foco, luz) com timidez,
mas quase sempre geram uma sensação de perda na apreciação do vídeo na sala escura, porque procuram o reconhecimento dos gestos e pessoas.
O vídeo da Tv Romande suíça sobre Kazu Ohno gravado sem acompanhar ritmos
do espetáculo provoca um envolvimento menor e entendimento superficial no espectador que assiste sem entender, a novidade exótica, incomum, extravagante, ilegível.
Dá existência, mas não informa.
‘Historinhas’: onde o narrativo da batuta coreográfica se alterna: ora mostram trechos
da obra, ora trazem depoimentos de como vivem e o que pensam os artistas.
O vídeo making of de ‘Clytemnestra’ de Martha Graham visa estimular
a imaginação do espectador, construído como série de blocos soltos,
esfria a apreciação do vídeo, porque remete para fora do programa e do espetáculo.

EXPERIMENTAL TÉCNICO
Constantemente somos condicionados a crer na técnica como relicário.
O ato de criar é valorizado como resultado material da técnica, como seu fruto,
como fim do processo criativo; dizem: “… exercitamos a técnica, o resto virá depois…”
ou “fotografar é um exercício de iluminação”.
Entretanto o videomaker por sua condição técnica de pouco equipamento quer utilizar
as “precariedades” como fonte de um novo fazer, de uma nova expressão.
No vale-tudo tecnológico, se quer compensar com a sensibilidade individual tornan
de Clyde Morgan e Juliana Carneiro, tentando dançar com eles, utiliza recursos de câmera
tais como quadro torto, erra o foco, movimentos bruscos de câmera e usa zoom excesso.
O espetáculo de dança original é apenas material bruto para ser modelado na obra vídeo,
assim que saímos da arte dança para uma arte audiovisual. Sem distanciamento
o videomaker persegue algo circundante: filmar o real não retém o real na fita, gera outra coisa.  ‘Isto não é um cachimbo’ já disse Magritte o pintor em uma tela.
No vídeo de Nan June Paik “Merce by Merce by Paik” o papa da videoarte faz do vídeo
em si um espaço cênico: chromakey e espelhos em tempo real levam Merce
e seus movimentos a várias realidades: desde uma rua em Caracas ao estúdio azul.
O gestual estroboscópico de Merce discute o fazer sentido, faz demolição da imagem renascentista de cinema, traz interferências com sonoridades e ruídos de fundo;
as constantes trocas de roupas de Merce (ele dança de roupas amarelas,
cinzas e pretas) nos impede a identificação com Merce e de nos iludirmos de estarmos lá; assim, ao perceber a diferença entre lá e aqui, percebemos a musicalização da imagem como parte da obra dança no vídeo.

VIDEODANÇA
O sentido e significado do VideoDança para quem pensa cinema, vídeo ou arte
num sentido maior audiovisual, está na busca de captar a essência do movimento;
fascinante principalmente quando o que se move é este objeto complexo
que é o corpo humano.
O videomaker está limitado a observação do movimento. Na dança se busca fazer
um movimento que seja expressivo. Encima do muro da observação do movimento,
fora do espetáculo, mas ao mesmo tempo dentro da esfera do acontecimento,
o videomaker, com sua eletrônica, quer compartilhar o que sente com o movimento
que danceur expressa, para evoluir, transformar a percepção do espectador.
Aí a descoberta de que registrar é uma invenção conjunta daquilo que motivou
o performer em uma nova superfície, uma nova linguagem, no limitado registro possível
em outro material. De um inicio mais pontual e localizado (vemos a mão do dançante)
ganhamos agilidade (na leitura visual dos movimentos do performer)
(vemos as mãos e pés do dançante, a gesticular) e nos encaminhamos a percepção total (sentimos o arrebatamento correspondente ao salto do dançante)
e enfim intuímos o significado de seus gestos que sensíveis nos emocionam.
O que só é possível se houver um ponto de vista claro e determinado, especifico, direto, fluido, mas atento e emocionado do videomaker.
Mais centrado no ato de preparação do espectador a uma obra de difícil leitura,
o vídeo “Carlota Ikeda, danceuse de Butoh” mostra a escola do gesto visceral,
nascida no Japão, como manifestação do horror nuclear.  Anne Kendall a diretora
vê com a maior reverência a samurai-sacerdotisa da dança das sombras, da dança
da epiderme. O facial da Carlota Ikeda lembra as gravuras japonesas de Kabuki
com seus rostos retorcidos em gritos silenciosos de pó de arroz branco.
Zoom In no olho de lince que se apresenta e numa aproximação da lente ao corpo
da dançarina temos o vislumbre do Sahara desértico ou de um Pólo Norte açoitado
por ventos incessantes.  A fúria dos elementos, na fúria da dançarina
vista por uma videomaker ligeiramente recuada, que, usando pontas de cena
e fragmentos do ensaio, nos deixa prontos para absorver o espetáculo que ela não mostra: a vida fora da tela é mais pesada do que a dança Butoh expressa.
Exemplo forte da tecnologia de efeitos a serviço da plena expressão da emoção,
“A Bailarina” do Studio Line no Rio de Janeiro, mostra os movimentos de Paula Morenah, com efeitos e trucagens, distorce o tempo e os espaços cênicos. A bailarina sai dos restos de uma TV num depósito de lixo, passeia pela cidade e termina destruindo a mesma TV
da onde sairá.
O vídeo “Dance in America” realizado por Merryl Brockway apresenta Merce Cuningham
com música de John Cage. Merce interfere no processo de feitura do vídeo, compondo uma peça especificamente para ser gravada. Começa com ele tecendo comentários
sobre o ato de dançar – ampliação da energia – mostrando que gestos são gestos e nada mais.  Entrando em cena e saindo diversas vezes, Merce dança em direção a câmera
e a cada vez que passa notamos mudanças: no cenário, na roupa dos dançarinos
que o acompanham, na posição deles. John Cage coloca em palavras o objetivo da música sem objetivo: conseguir que as pessoas aprendessem a sentir, sentindo.

VIDEODANÇAS ESPECIAIS: dignos de observação a parte
– “Un Jour Pinna A Demandé”, da belga Chantal Ackerman, nos traz trechos de rara beleza
de uma tournée da coreógrafa Pina Baush com imagens do clima íntimo por detrás
dos bastidores, traz uma exata correspondência entre a obra no palco e o registro,
tendo-se a certeza de sentir nos trechos gravados a mesma emoção dos espetáculos
ao vivo. No trecho ‘venha dançar comigo’, na cortina fechada que cobre todo o palco
vemos através de uma pequena porta aberta o grupo dançando roda do outro lado,
cantam convidando a dançar e depois fecham a porta com um estrondo impacto profundo
(porque não fomos?).
Noutro trecho, dançarino responde a pergunta com a música ‘The Man I Love’ de George Gershwin (sucesso no youtube): ao alongar a duração dos gestos como a cantora alonga
as palavras, o dançarino canta em linguagem surdo-mudo a música com as mãos e braços !
Outro vídeo digno de menção especial, ‘O Boi no Telhado’ de Oscar Santana,
mostra a obra coreográfica de Lia Robato, com estrutura operistica, um clima de carnaval nostálgico dos anos 20.  Apesar da montagem e edição típicas do esporte de fórmula um na televisão, pipocando cenas de movimentos dos bailarinos (sem muito respeito pela fluidez da montagem) o vídeo proporciona sentir a garra dos dançarinos que nos levam
ao êxtase errando o passo, porém acertando na emoção,
no sentimento, na mensagem, na cor, no som, no impacto.
A excelência do som, acoplada a excelência da percepção da iluminação como elemento
criador aconteceu no vídeo de Eckard Kipping, mostrando trechos do espetáculo de Ismael Ivo, brasileiro, radicado na Alemanha. A parte em que Ismael dança suspendendo velas acesas na ponta dos seus pés criou um dos momentos mais emocionantes do festival.
Os atabaques da trilha sonora compõem séries rítmicas acompanhados por um belíssimo violino elétrico, levaram ao delírio, sem contar a perfeita sincronia entre perna, pontapé
e batida nos pratos. Uma pérola.
_________________________________________
Documentos históricos, experiências técnicas ou videodança, hoje com dispositivos móveis, telefones e câmeras portáteis com maior resolução de imagem poderemos captar
e filmar com uma multiplicada quantidade de pixels, e o cinema com exibição 3D promete ampliar ainda mais nossa capacidade de aprender ao rever obras de dança registradas;
tudo para nosso espectador ideal predileto.

Hoje em 2012, com a nova camera gopro, é possível que o bailarino ‘vista’ uma camera
e depois se possa assistir ao ponto de vista do bailarino… estamos no limiar de grandes
acontecimentos audiovisuais.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s