Cultura Sub-Espécie LUDI

Setembro 26, 2011

Cyro dos Anjos se sentiu perplexo ao ouvir a pergunta: ‘ por que escreve ? ‘
‘…uma coisa é a atividade literária, e outra a motivação…
convida-nos a literatura a fugir do real ou, pelo contrario,
nos dá acesso a uma realidade mais profunda ?
Constitui mero passatempo ou funciona como uma válvula
para libertar o espírito de sentimentos e idéias que o oprimem ?
A primeira fonte que recorri foi o compêndio de estética
de Felicien Challaye, obra para principiantes: nela diz o professor frances
que a atividade psicológica é no homem e no animal orientada para a ação.
Todo mecanismo mental do homem trabalha para assegurar a vida
e a sobrevivência no meio que o cerca.  Agimos para prover à nossa subsistência
e a defender-nos dos perigos que a envolvem.

Ora a arte cria objetos inúteis, então por que lhe dedicamos as potências mais apuradas ?

Challaye pôs em contato com as tentativas clássicas de explicação do fenomeno
que sugerem que a arte teria a natureza do jogo  (como entretenimento,
folguedo, diversão).

Assim, segundo os partidários dessa teoria, o jogo representa uma exigência
do organismo, que necessita aplicar suas sobras de energia.  Como nosso organismo
costuma se abastecer em excesso – pois a natureza é previdente – mas não há
aproveitamento orgânico do excesso de energia acumulada,
precisamos despendê-la de qualquer modo.
Assim se aplica a dissipação de forças que ocorre na criança, quando brinca,
ou no adulto, quando se entrega ao esporte.
E, desse modo, há entre jogo e arte um traço comum: ambos constituem
ocupação agradável por si mesma e que encontra em si mesma seu próprio fim.
É o que dizem aproximadamente Kant, Spencer e o poeta Schiller.

Paul Valéry expressa de outro modo a mesma idéia de que arte é o aproveitamento
de coisas que transbordam.  Mas, Valéry afirma de que não se trata de dispêndio gratuito de energia acumulada e sim da utilização de impressões e percepções que se encontram
em nós em um estado de disponibilidade.
Observa esse autor que a maior parte das impressões e percepções que recebemos
pelos nossos sentidos não desempenha papel algum no funcionamento dos órgãos
essenciais à conservação da vida.  Das inúmeras sensações sensoriais que nos assediam
a todo instante, diz ele, só uma parte infinitamente pequena é necessária ou utilizável
para nossa existência puramente fisiológica.  E conclui que a invenção da arte
resultou da necessidade de conferir às sensações inúteis uma espécia de utilização.

A tese de que arte se assemelha ao jogo, em seu caráter de impulso desinteressado,
nunca foi inteiramente afastada.  Huizinga defende, em sua obra Homo Ludens,
que não é só na atividade artística mas como em todas atividades sociais
há presença do fator lúdico.
Ao homo sapiens e ao homo faber, ele acrescenta o homo ludens.
O jogo, para Huizinga, transpõe os limites de ocupação puramente biológica ou física,
descarga de excesso de energia vital, para se tornar função cheia de sentido.
“”as grandes ocupações primordiais da convivência humana estão, já,
impregnadas de jogo.””
A linguagem, primeiro e supremo instrumento que o homem constrói,
é cheia de metáforas, e atrás de cada metáfora, há o jogo de palavras.
Assim a humanidade engendra, contantemente, outro mundo ao lado
do mundo da natureza.
No culto como no mito, o elemento lúdico se patenteia.  A comunidade primitiva
põe nas suas práticas sagradas, nas consagrações, nos mistérios e sacrificios,
o cunho de puro jogo, tomado o vocábulo em seu sentido verdadeiro.
E como grandes forças que impelem a vida cultural tem sua origem no mito e no culto,
parece perfeitamente licito considerar-se a cultura sub especie ludi.

A criação literária, Cyro dos Anjos,
Edições de Ouro Cultural 1964

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