Historia de las Gravatas

prepare seu coração: e assista ao primeiro curta metragem
História de las Gravatas, 1990.
http://www.youtube.com/watch?v=sJEfUfNfM68

Extraordinária aventura de produzir um primeiro filme digital.
Mas a dúvida era qual história iriamos produzir.  Passei um par de semanas
contando várias histórias, até que todos riram com uma piada contada por
meu irmão Giancarlo, daí criei em formato de pré-roteiro uma narrativa,
mas na época apenas pensava em termos de produção, muito mais preocupado
em organizar o processo de filmagem. pensando em descobrir dinâmicas e fluxos emocionais na tela a partir do trabalho dos atores.  Eli me pediu contraponto
aumentando as etapas da narrativa e Raimundo me pediu que escrevesse
um texto contando toda a história ‘por escrito’.
Acho que foi aí minha primeira incursão pelo fazer roteirizar.

Tivemos uma série de aventuras profissionais para conseguir realizar o filme:
alugamos um par de players VHS e nos ofereceram pagar com uso de equipamento,
mas na hora de agendar o equipamento betacam, a produtora se recusou!
Antes que pudessemos gritar ”Falta!” nos ofereceram pagar em dinheiro…
e depois de hesitarmos alguns segundos concordamos meio sem saber se deveríamos
continuar brigando ou apenas sair dali.  Intuitivamente saimos dali com um cheque.
Assim, ao inves de uma produção completa, sem dinheiro para levar pessoas
passamos a ter uma produção com dinheiro para despesas e sem equipamento!
Daí que optamos por produzir em SVHS que na época tinha pouca resolução de imagem
e pequena capacidade de lentes.  Para contornar as dificuldades técnicas,
decidi que a imagem do filme seria o equivalente a uma aquarela, com um forte senso de cor e da presença de longos espaços, dividindo a tela em uma composição de céu e areia.
Assim o tema do estudante perdido no deserto teria uma representação visual
e ele estaria sempre entre os dois ambientes, entre as duas cores.

Eli Joory acompanhou todo o processo, apontando onde poderíamos melhorar,
questionando escolhas, decisões, incentivando a fazermos um filme.
Depois quando finalmente superamos dificuldades de produção de som
ele criou uma trilha sonora que ia do clássico a música arabe tradicional
ao atonal e tudo com muitos contrapontos ricos e fascinantes.  Passei muitos
anos desde então exigindo de outros músicos o mesmo nível sem me dar conta
da máxima sofisticação que era ter tudo isso composto e meticulosamente
tocado em um minusculo equipamento de 16canais com fitas fostex…
Realmente sempre penso na ‘Gravata’ com a música do Eli,
e o percurso sonoro emocional tem sido um enriquecimento para mim como pessoa.
Tião Queiroz nos fez um forte impacto ao produzir sons como a porta do carro abrindo
apenas com uma caneta e fita durex.   Eu e Eli ficavamos como crianças querendo
brincar com tantas possibilidades de som de ruídos da natureza.  No set decidimos
que iríamos tentar aproveitar ao máximo o som do vento.

Myrtes Maria encontrou as mais bonitas imagens que vi de um espaço deserto.
A cenografia planejada não resistiu ao ambiente onde
filmamos – dunas de Buzios – porque havia um vento tremendo; a tenda planejada para ter
e dar sombra, se tornou uma parede.  O origami da tenda em miniatura e das palmeiras trouxe um lirismo visual que as crianças adoram.
Marilena Bibas enriqueceu a idéia do curta com formas de aproximação sucessivas
entre mim, diretor e os atores, que propuseram movimentos e gestos que iam muito além
do quotidiano e de um realismo.  Também evitamos ser fantásticos, já que o estudante
personagem principal deveria corresponder a um humano normal.  Então o dificil
foi encontrar gestos e modos de estar que fossem exóticos mas ainda no limiar do normal.
Cairo Trindade representou com uma energia estatutária que nunca tinha visto antes; seu
primeiro vendedor de gravatas assim se tornou mais do que humano, verdadeira aparição !
Marco Americano nos impressionou a todos quando filmamos: ele acrescentou pausas
e longas evocações sonoras na voz o que na tela causa um impacto tremendo.
Wagner Dias criou o giro do homem da tenda, e junto com Rosana Prazeres
deram vida a um lugar de sonho.
Raimundo Porto, o estudante perdido, fez malabarismos teatrais.  Assisti-lo é como
ver uma pessoa real em plena ação: não parece que está representando, ele vive o papel.
Nos deixou completamente em transe, seja na ‘maquiagem’ de por a cara na areia,
seja na parada para fumar (hoje não tão normal), seja no abraço de si mesmo
ele nos levou por um percurso, por uma sensação de desconforto até o encontro
da gravata no final.

Hoje com 2 decadas de distãncia, me dou conta da extrema qualidade do filme.
Penso que se tivesse sido produzido há poucos anos atrás com personagens 3D
teríamos parado o mundo !
A História de las Gravatas causou um impacto emocional que não estavamos preparados:
a maioria das pessoas reclamava que o filme os tinha deixado com sede !
Comercializar curta então, como hoje, é extremamente dificil.  O filme foi subsequentemente exibido na Casa de Cultura Laura Alvim e depois num programa
da TV E (hoje TV Brasil) e tivemos enorme público.

Em 1992 levei o filme para a Itália, onde fui bem recebido como produtor latino-americano
italo brasileiro, e outras aventuras se seguiram que culminaram em trabalhar como analista de roteiro em Londres.

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